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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

No Shangri-La

Shangri-La. Terra de suprema felicidade e permanente harmonia, perdida num vale algures nos imponentes e frígidos Himalaias. A harmonia social, cultural e religiosa emana do Lama, governante cuja mão sábia e gentil planta os frutos da estabilidade e da paz. O Lama supervisiona a vida diária dos seus súbditos, assegurando que pobres e ricos convivam harmoniosamente, longe do conflito de classes e das convulsões sociais que têm vindo a pautar a história Ocidental através dos séculos. Uma utopia instalada no Tecto do Mundo, entre os picos altos e inóspitos dos Himalaias, que ainda assim são férteis em mitos e lendas diversos enraízados numa cultura milenar, moldada pela mão hábil dos sucessivos Dalai Lama, encarnações de Chenrezig, o Bodhisattva da Compaixão. Uma existência culturalmente rica e pacífica, numa sociedade onde reina a justiça, a cooperação e o contentamento, orientada pelos mais elevados valores budistas.

Descrito acima está o cenário que a maioria das pessoas invoca quando pensa no Tibete: frio e inóspito, mas feliz. O último paraíso na Terra, violado e deturpado pela República Popular da China aquando dasua invasão em 1950, triunfo em 1951 e consolidação em 1959, evento que colocou o Dalai Lama e o seu séquito em fuga. Os vis e seculares comunistas chineses triunfaram facilmente sobre os bons monges indefesos, enquanto o mundo assistia, impassivo perante a devassa de Shangri-La.

No entanto, este cenário possui duas vertentes: Uma é um vertente mítica, e a outra é pura verdade histórica. A verdade histórica deste cenário reside no facto de as forças de ocupação chinesa terem levado a cabo, sob os mais variados pretextos, um vasto leque de atrocidades contra o povo e cultura tibetana. Por mais progressos que tenham sido obtidos com o fim do feudalismo teocrático, estes tornam-se questionáveis quando os novos senhores assumem as rédeas da opressão, usando pretextos e ferramentas diferentes.

A vertente mítica deste cenário encontra-se firmemente enraízado no paradigma ocidental, oculto pelo nevoeiro da História (ou pela falta de interesse no seu estudo) e pelas espessas nuvens da ignorância (consequência inevitável do primeiro). Shangri-La, que de acordo com os ingénuos cruzados do 'Salvem o Tibete', quais paladinos que não conhecem a sua causa, é isso mesmo. Shangri-La. Mas Shangri-La é afinal um local fictício, cujas características gerais descrevi no primeiro parágrafo. Poderá encontrar esta terra de felicidade suprema nas páginas da obra “Lost Horizon”, da autoria do norte-americano James Hilton, que imagina e passa para o papel a utopia dos himalaias. Mas é nas páginas da sua obra que a utopia começa e conhece o seu fim: longe das utopias, felicidade ou estabilidade, o Tibete é palco de violentos conflitos sociais e religiosos, onde a exploração do homem pelo homem conhece uma dimensão mais assustadora que aquela praticada durante a Idade das Trevas europeia. O Tibete dos bem-aventurados é, afinal, o Tibete dos servos e dos escravos, dos castigados, dos desesperados e dos prisioneiros do Karma. O Shangri-La é afinal, um cenário desolador, tão duro, exigente e cruel como os picos e vales esculpidos pela Terra há milhões de anos.

Prisioneiros do Karma

Karma, esse conceito budista que nos fala de vidas passadas, e da recompensa a ser colhida proporcionalmente ao nosso comportamento durante as nossas vidas. É no Tibete que a religião, afinal, Estado, impõe a forma mais horrível, inescapável e ridícula medida de controlo social: Um camponês, desafortunado trabalhador dos campos, de sol a sol, assim o é pois o seu Karma dita que esta é a justa retribuição pelos seus actos nas suas vidas passadas. Da mesma forma, um monge rico assim o é pois tal é a sua recompensa pelos seus actos nas suas vidas passadas, proporcional à sua conduta. É no Shangri-La que os indivíduos são tidos na qualidade de responsáveis por actos que não são os seus, evidenciando uma forma astuta de controlo social que rivaliza e supera o conceito do Mandato Divino da Monarquia Absoluta.

É no Tibete idílico que a justiça é administrada das formas mais cruéis. As amputações são frequentes, e a pena de morte é administrada indirectamente (o Budismo condena o homicidio, seja sob que pretexto for). É neste local em que a teocracia atinge um novo auge, que faz corar de vergonha a República Islâmica.

Que Fazer?

Os argumentos avançados por ambas as partes demonstram o ridículo da situação em que o povo tibetano se encontra. Se por um lado os pró-independência (que na sua maioria são, por ignorância, pró-teocracia) visam a restauração do Dalai Lama ao poder, obstante a ordem social representada por este, os pró-integração (ou pró-RPC) hasteiam a frágil bandeira da Democracia e do Progresso. E é nesta luta de vontades que se esquece ou se relega para uma posição de insignificância as vontades e expectativas do povo tibetano. As barbáries cometidas por ambos os lados do conflito são omitidas ou desmentidas, e cada facção tenta mostrar o seu Tibete como o exemplo perfeito, ou da vida simples e harmoniosa, despreocupada e estável, ou da sociedade antiga que se modernizou sob os auspícios de Pequim. Apenas a miséria, que grassa continuamente, parece não escolher lado: a sua presença é ubíqua na história do Tibete, seja qual for a bandeira hasteada em Lhasa.

A solução, de acordo com os valores do Direito Natural e os melhores valores do Direito Positivo, é deixar a decisão da soberania, e de quem deve governar ao povo tibetano. Só neste reside o poder e a competência para legitimar um regime, e é mediante a sua aprovação e supervisão que este deve exercer funções. O povo tibetano deve ser libertado dos Lamas e do Karma, assim como dos burocratas de Pequim.

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terça-feira, 29 de maio de 2007

Industria Farmacêutica: Amiga do Cancro?


It sounds almost too good to be true: a cheap and simple drug that kills almost all cancers by switching off their “immortality”. The drug, dichloroacetate (DCA), has already been used for years to treat rare metabolic disorders and so is known to be relatively safe.

Tal como a New Scientist afirma, esta é uma droga milagrosa. Simples. Eficaz. O seu custo de produção é ridiculamente baixo. É uma substância que é utilizada actualmente no combate a uma condição metabólica aguda, a acidose láctica. Sabemos, portanto, que é segura para administração em seres humanos.

É no entanto necessário conduzir testes em seres humanos que padeçam de condição oncológica para comprovar a sua eficácia no combate ás células cancerigenas. Estes testes, em princípio, deveriam ser financiados pela indústria farmacêutica, cujo interesse na produção e venda de tal droga é elevado.

O problema reside no facto de o DCA ser uma substância cuja produção é um processo de baixo custo. A indústria farmacêutica não está interessada em comercializar uma substância de baixo custo, e cujo valor não pode inflacionar. Seria uma solução largamente disponível, ubíqua. E não é isto que interessa a uma indústria farmacêutica sedenta de lucro.

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